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A contos com a Justiça...e com a Sabedoria!

Não é minha intenção fazer publicidade ao livro. Mas depois de muito procurar, infrutiferamente, nas livrarias, eis que os meus filhos me ofereceram no dia da mãe o livro que há tanto procurava: «A contos com a Justiça».
Para quem não sabe, é um livro da Coimbra Editora, composto por aproximadamente uma dezena de contos, escritos por juízes, que retratam várias faces da justiça e curiosidades que a mesma suscita.
A minha primeira reacção foi a de passar os olhos pelo elenco dos autores dos contos, na ânsia de encontrar algum que conhecesse pessoalmente. Como os contos são independentes entre si e a ordem de leitura pode ser arbitrária, rumei, quase imediatamente, para o conto de alguém que (ao que penso) conheci quando era ainda juiz estagiária em «terra de monges e de Pedro e Inês». Alguém que admirava pelas suas palavras tão simples quanto sábias, e cuja profundidade passava desapercebida, a uma mente menos atenta, escondidas que estavam na sua singeleza.
Procurei, nesse conto, essas mesmas palavras sábias. Lá estavam elas:
«Então explique. (…) Explicar tem sempre a dificuldade do esforço e porque toda a explicação é caminho de conhecer, o resultado é sempre um espanto tão lavado e impune que quando alguém se explica apenas substitui em quem explicações pede, a dúvida inicial pelo deslumbramento subsequente ou pela desconfiança residual. (…) Temia que naquele contexto explicar fosse entendido como um trabalho de persuasão que conduz à desconfiança e não como expiação da verdade que revela o assombro (…)».
Lembrei-me, acto contínuo, do sabor amargo que tinha sentido quando alguém, alheio a estas lides da justiça e dos Tribunais, me pedia que explicasse aquilo que aqui já foi chamado, num post anterior, de telenovela das férias judiciais. Quando o fiz senti sempre este sabor amargo de explicações motivadas pela desconfiança.
Agora, com estas palavras tão simples como sábias, descobri o porquê. Descobri o porquê de alguém, em tempos, num debate televisivo, dizer que as férias judiciais eram uma batalha perdida dos juízes, como efectivamente o foi em termos de explicações para o exterior.
Por isso, mais do que descobrir, aprendi duas lições sábias:
- vou por um visto em correição no tema das férias judiciais;
- vou tentar, no meu trabalho do dia-a-dia, não esquecer esta psicologia das explicações quando as exigir de um arguido, testemunha ou interveniente processual.
Explicar, a quem explicações pede, perante um quadro de desconfiança é muito mais do que explicar a realidade do que se passou.
A contos com a justiça: uma mão cheia de imaginação e curiosidades, e outra cheia de sabedoria!

Obrigado, por óbvias razões, pela amável referência feita ao livro "A contos com a Justiça".

O êxito obtido remete já para um reatar da ideia.

O livro é excepcional e de leitura obrigatória. O post é muito oportuno. Em certas ocasiões, explicar determinadas coisas, quando sobre as mesmas alguém já formulou a sua convicção, é um processo algo doloroso e desgastante, precisamente porque se parte de uma posição de desvantagem que assenta, às vezes, na desconfiança ou simplesmente na falta de conhecimento do todo em que se insere a mensagem que se pretende transmitir.

Reatar a ideia... e por que não uma viagem à poesia? Do conto até lá, vai por vezes uma distância muito pequena. Reparem por exemplo no último conto do "moicano" aqui publicado há alguns dias (continuo com alguma dificuldade em dirigir-me a nomes fictícios mas na ficção até se compreende...) E a nossa amiga Cleópatra tem poesia nova publicada no seu espaço. Se calhar com maior facilidade do que poderia parecer à primeira vista se arranjaria uma pequena colectânea não de jurisprudência (que nessa ciência já há muitos a trabalhar) mas de palavras escuras ou luminosas que também a nós juízes nos podem fazer sonhar...

Era uma vez há muitos anos, talvez até ainda antes de o tempo se contar em dias e em revezes, quando as pessoas viviam em povoados e aprendiam o poder de comunicar .
Habitava num monte um povo minúsculo de gente quase invisível e de poucas falas e havia construido as suas casas em redor de um marco de pedra anguloso apontado para o céu.
A cada um, pelo mágico do reino que ali se dirigia todas as manhãs, eram distribuídas ao nascer do dia 100 palavras . Nem uma mais nem uma menos.
Por isso eles apenas diziam coisas acertadas , directas e inteligíveis.
A vida corria com a exactidão com que as palavras ,iguais para todos, eram distribuídas como uma ração preciosa.
Mas houve alguém que se revoltou , num dia incomum...
Invejando a forma com que muitos faziam render os seus vocábulos e , ainda mais, o que conseguiam obter com eles, o inconformado começou a engendrar um plano de revolta mas, lamentavelmente tinha apenas 100 palavras por dia para se revoltar.Nem uma mais nem uma menos.
No fim de muito pensar , e pensar sem palavras rendia muito , descobriu que se escrevesse as palavras da revolta ,elas não valiam mais mas duravam mais tempo.
Afinal vale mais aquilo que dura mais tempo ...
E assim fez.
Começou a grafitar nas paredes o desacordo de as palavras serem iguais para todos e em tal número.
E incitava à revolta, convidando à recusa em utilizar as palavras distribuídas.
Afinal, pensava ele, que se todos poupassem as suas palavras e se as pusessem em comum , poderiam como um todo ter muitas mais para usar...
Ao fim de 3 dias e depois de ter regimentado alguns habitantes do reino tinha ele já mais de 1500 palavras e então resolveu fazer um manifesto.
Mas, embora tivesse 1500 palavras tinha muitas repetidas pois que apenas 100 eram diferentes .
A solução seria fazer um manifesto curto mas repetido muitas vezes.
Ao fim de um tempo o conjunto dos seguidores somava-se e , com ele , o poder daquelas palavras repetidas sincopadamente como as horas , na torre do campanário.
Alertado pelo crescente alarido o mágico do reino começou a levar a sério aquele movimento sonoro e resolveu tomar uma atitude.
Daria de futuro apenas metade das palavras a cada um.
E se o pensou melhor o fez.
Surpreendidos pelo emagrecimento da ração comunicante , os habitantes tomaram-na consigo e lá abalaram vergados ao peso de uma autoridade incontornável.
Alguns deles chegaram a semear as palavras nos campos mas ou porque a terra era avara ou porque a semente de má qualidade , nenhuma colheita tiveram.
No segredo do anonimato o contestatário magicava uma resposta.
Se as palavras eram menos teriam de ser gritadas mais alto...
E assim fizeram .
Ás horas estabelecidas , o cortejo percorria as ruas zonzando e vozeando aquela prosa irreverente de quererem mais palavras para lá das palavras.
Cada dia que passava a multidão aumentava e com ela a força do som que se expendia.
O mágico atordoado via a população unir-se em volta do pouco que tinha e aquelas 50 palavras distribuídas tinham afinal o peso das palavras únicas , como um tiro de canhão .
A solução era apenas uma...Dar-lhes o que queriam e assim se decidiu a abrir os cofres do reino e a deixar que todas as vogais , todas as consoantes e todos os acentos fossem distribuídos sem reserva e sem critério.
E foi desde esse dia , para espanto do mágico e desdita do revoltoso , que mais ninguém foi capaz de dizer ou de entender as mesmas coisas.
Deixou de haver cortejos pelas ruas do país e possuídos de tantas palavras ninguém mais se entendeu.
As palavras, essas foram aos poucos perdendo o significado e diz-se que esse país distante , foi definhando até ter desaparecido , precisamente pela abundância das palavras ter inundado o corações das gentes e esvaziado o sentido dos gestos...

Excelente conto! Moral da história? Quem tudo quer...tudo perde! Mais uma vez, a contos com a sabedoria!

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