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"O PAÍS PERDEU O JUÍZO"


Ao ler os jornais de hoje fui invadida por uma tristeza difícil de descrever. Talvez a melhor forma seja mesmo reproduzir os extractos das notícias ou crónicas que me deixaram naquele estado de espírito. Creio que irão compreender, se é que não compreenderam já por muito provavelmente terem lido o mesmo que eu:
Comecei por uma crónica de sentido crítico apuradíssimo que, confesso, até me fez sorrir. Refiro-me à ironia do grito “Socorro: somos todos privilegiados” assinada por Rui Tavares, no Público de hoje. Se não leram, não deixem de ler. Aqui fica apenas o registo de uma frase que não resisto a reproduzir:
”Um dos aspectos mais proeminentes do discurso político contemporâneo é que as castas dominantes – gestores e economistas de topo, membros de conselhos de administração, banqueiros, capitalistas e porta-vozes de associações industriais, marqueteiros e gestores de imagem, líderes de directórios partidários, governantes, colunistas ou editorialistas -, que não perfazem juntas mais do que um por cento da população, têm por hábito chamar privilegiados à maior parte dos restantes 99 por cento. “ Notável! Não fora os artigos que li a seguir virem demonstrar que, afinal, na ironia daquele historiador não havia nenhuma razão para rir!
Nem foi preciso virar a página para, ao ler o editorial do director daquele jornal, ver José Manuel Fernandes concluir:
“Por isso é que, bem lido, o discurso de Cavaco também surpreendeu ao dar ao mesmo tempo conforto ao governo, como ao lembrar-lhe que deve ser mais humilde. Ele e todos nós, «os de cima»”.
É sempre de louvar um registo de humildade, especialmente quando “vindo de cima”, mas quando escassas páginas à frente, ainda no mesmo jornal, se depara com o título “Gestores do BCP acusados de «encherem os bolsos»” (notícia assinada por Cristina Ferreira) e se percebe que até no expoente do capitalismo, os EUA, é motivo de escândalo os vencimentos auferidos pelos quadros dirigentes dos nossos bancos, nem mesmo a humildade dos discursos já consegue tranquilizar-nos. É que, segundo aquele artigo, o The Wall Street Journal não se coibiu de referir que “os banqueiros têm jeito para enriquecerem. Mas poucos o fazem com tanto atrevimento quanto os gestores do BCP”. Inacreditável!
Vasco Pulido Valente, também no Público, na sua “História de um fracasso”, conclui: “Pobre, corrupto, irresponsável e apático, este Portugal não encontra com certeza razão para a sua própria sobrevivência”. Já todos lhe conhecemos o cepticismo e contundência, mas, mesmo assim, conseguiu chocar-me.
Depois de tudo isto, já não consegui ler “O adivinho” e “O Estado doente” do jornalista João Cândido Silva. Os títulos anunciavam-me mais desgraça.
Era hora de mudar de jornal. Abri o Expresso.
Propositadamente deixei o Miguel Sousa Tavares para o fim. A sua crónica intitulada “Será Portugal governável?” não augurava nada de bom.
Do caso de mais uns cidadãos que dois anos depois de serem detidos com transmissão em directo pelas televisões e aparato policial digno dos melhores «films noirs» acabaram sem sequer terem de ir a julgamento, que o director do Expresso comenta “Sem surpresa”, prefiro não falar. Deixem-me apenas que expresse um pequeno desabafo contra aqueles que hoje se insurgem com o nosso (dos magistrados) silêncio sobre o assunto: é que não sinto nenhum prazer em lembrar que já por mais de uma vez (a última das quais neste mesmo espaço) tive ocasião de me insurgir publicamente contra esta prática generalizada que existe em Portugal - e a lei fomenta! - de dar boleia às pessoas em carros da polícia para irem de visita ao tribunal. Não preciso de esperar pelo desenlace dos casos mediáticos para lançar «lágrimas de crocodilo».
Mais à frente João Pereira Coutinho comentava a «sustentabilidade» (ou falta dela) da segurança social num artigo que designou por “Talvez morrer”.
Não, não podia ser. Com certeza haveria jornais com uma mensagem mais agradável. Fui à procura no Diário de Notícias. E lá estava uma notícia que já conhecia: “Num texto de opinião publicado na edição de ontem do The Wall Street Journal, um jornal financeiro norte-americano, critica a política de remuneração variável da administração do Banco Comercial Português (BCP), acusando os gestores do grupo de “encherem os seus bolsos, enquanto destroem o valor dos investidores” (notícia assinada por Maria João Gago).
No mesmo jornal, o Prof. António Costa Pinto termina o seu artigo de opinião intitulado “A empobrecer” desta forma: “Como salientava o relatório da OCDE, o pior são mesmo os dados que nos assombram o futuro para além do ciclo eleitoral, sendo o capital educacional o mais sinistro. E para este desafio a solução não está à vista”
Ainda outro professor universitário, Francisco Saarsfield Cabral, dava um sugestivo nome ao seu artigo “Não é a conjuntura, estúpido”.

Depois de tudo isto, não pude deixar de recordar o cepticismo do meu pai quando, perante a esperança eufórica depositada na adesão à Comunidade Europeia, numa lógia de “a adesão-resolve-tudo”, repetia: “Quando se acabar o dinheirinho que a Europa manda, é que vamos ver…” Estou certa de que, apesar de tudo, esperou sempre nunca ter de ouvir a frase: afinal tinhas razão!
Tal como a mim não me agrada, mais uma vez, ter que com concordar com um articulista que tanta polémica suscitou já neste nosso “Dizpositivo”, mas não será mesmo caso para concluir, como faz Miguel Sousa Tavares na crónica de hoje do Expresso, que “o país perdeu o juízo. E, quando um país perde o juízo, tudo o resto se pode perder, por acréscimo”?
Para não faltar ao espírito “positivo” que o fundador deste nosso blog desde o primeiro momento idealizou para o mesmo (e que é, sem dúvida, um excelente exercício e de cada vez mais oportuno), depois de uma manhã como a de hoje, acho que vou deixar de reservar as primeiras horas de sábado para a leitura dos nossos jornais generalistas de referência enquanto saboreio um café numa esplanada soalheira de Lisboa. Prefiro a companhia de um bom livro, sempre numa esplanada, na esperança de que, pelo menos, nunca nos falte o sol. O pior é que começo a estar deveras preocupada pelo futuro das minhas filhas. Tal como o meu pai se preocupava …

Sra. Dra., antes do pai de V. Exa. já o meu pai se preocupava, o meu avô se preocupava e o meu bisavô também e por aí fora. Isto é
próprio de Portugal. Se, por exemplo,ler a Campanha Alegre do Eça lerá as mesmas coisas que hoje citou. E se ler por exemplo a História da nossa raínha D. Maria na edição em curso do Círculo de Leitores lerá a mesma coisa. E por aí fora, etc, etc., etc... Como disse hoje o Prof. Marcelo, se não estou em erro, os intelectuais portugueses dizem sempre que os portugueses são umas bestas ( eles incluídos, claro! ).

Mas também é próprio de Portugal ser o país do "primeiro mundo" - já não é só da Europa ocidental, mas também da de leste e do resto do planeta - onde é maior a diferença de rendimentos entre ricos e pobres.
É que, ao contrário do que o anterior post pode dar a entender, não está tudo na mesma. Os indicadores económicos revelam que as assimetrias sociais são cada vez maiores.
É claro que podemos sempre sacar da carteira aqueles dois índices que nos orgulham: mortalidade infantil e... Ia dizer tuberculose, mas parece que até este já não é bem assim.

Tudo tem (teria se...) solução!
A França do século XVIII deixou, para a história, um exemplo de absurdo que encaixa perfeitamente no Portugal dos dias de hoje:
Mª Antonieta, quando lhe diziam que havia agitação em França porque os franceses não tinham pão, respondia: "se não têm pão comam croissants".
Lembro-me sempre disto quando ouço os responsáveis, políticos ou da justiça, (ou outros), nos OCS, a "dissertarem" sobre os nossos problemas...
Cuidado, porque Antonieta acabou "perdendo a cabeça" e, quando "os de cima" bloqueiam as vias das soluções democráticas, com a sua cegueira, prepotência, presunção e arrivismo, não se pode prever o que acontecerá, no limite...

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